Julio Ribeiro mostra que caminho do Brasil é o trabalho

Julio Ribeiro, 82, morreu na madrugada do dia 2, vítima de um AVC, aos 84 anos. - FOLHA DE S.PAULO
Julio Ribeiro, 82, morreu na madrugada do dia 2, vítima de um AVC, aos 84 anos. – FOLHA DE S.PAULO

Julio Ribeiro trabalhou toda a sua vida até o último dia, aos 84 anos de idade. Nem uma grave doença nos últimos anos o venceu. Julio trabalhou íntegra e integralmente até nos deixar. Portanto, estou aqui não só para homenagear Julio Ribeiro, que parou de trabalhar no início do mês, mas para celebrar a paixão pelo trabalho que ele e sua vida toda representam tão dignamente.

Eu tenho essa paixão. Peguei uma agência da Bahia, a DM9, e fiz dela a maior potência criativa do mundo, ganhando o Agency of the Year em Cannes em 1997 a primeira vez que o prêmio foi concedido a uma agência fora do eixo EUA-Reino Unido.

Vendi a DM9 em 1999 e depois lancei o iG com Guga Valente, Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, entre outros, sendo pioneiro da internet no Brasil. Investi com Fernando Altério para criar o Credicard Hall. Voltei para a propaganda com meu parceiro Guga Valente e junto com Marcio Santoro, Sergio Gordilho e Luiz Fernando Vieira fizemos esta que é uma das máquinas da criatividade do Brasil, a Africa.

Mas eu e Guga não paramos por aí. Recompramos parte da DM9 e paulatinamente construímos o maior grupo brasileiro da propaganda e um dos 20 maiores do mundo, o Grupo ABC, que foi vendido no maior deal da história da propaganda nacional.

Relato tudo isso não para me vangloriar, mas para dizer que, por tudo que já fiz, poderia parar. Mas, como Julio Ribeiro, o amor pelo trabalho, que é o amor pelo sonhar e construir, me leva adiante.

Eu amo trabalhar e amo o meu trabalho. No ano passado, eu tive o desafio e a honra de reestruturar aquela que é a minha amada e lendária DM9, que agora entrego a dois craques para comandá-la. O ano de 2017 foi uma pauleira. Deu insônia e um monte de refluxo. Tive que aprender a ser o Tite e a sabedoria de não querer ser o Neymar. E foi gratificante ser apontado pela publicação especializada Meio & Mensagem um dos dez publicitários do ano no meu ano 60.

Não é fácil se reinventar, mas meus amigos me chamam de fênix. Nasci DM9, vendi, fiquei perdido, renasci, tirei o iG do vermelho, botei o iG no azul, morri, voltei Africa e virei ABC. E tem mais.

Com o Julio Ribeiro que há dentro de mim, estou inventando novas coisas. Se vai dar tudo certo? Não vai. Na minha vida, na vida do Jorge Paulo, na do Abilio Diniz, na do Bill Gates, na do Steve Jobs. Mas, quando não é mais o dinheiro, é essa enorme paixão pelo ofício que se impõe e que renova a gente. Que nos leva a seguir em frente e a pular da cama todo dia de manhã cheio de energia. É a paixão pelo trabalho que faz Luiza Trajano ser Luiza Trajano, Ivete Sangalo ser Ivete Sangalo, Fernanda Montenegro ser Fernanda Montenegro, Roberto Kalil ser Roberto Kalil, Rogério Fasano ser Rogério Fasano, Fernando Altério ser Fernando Altério, Duda Melzer ser Duda Melzer.

Eu adoro férias, mas, depois de dez dias, socorro! Eu quero o meu trabalho! E é essa paixão pelo trabalho e pelo empreendedorismo que temos de ensinar às novas gerações. A paixão pelo trabalho, por empreender, que é o grande legado do mestre Julio Ribeiro e a mensagem que ele deixa para todos nós. O legado da paixão pelo trabalho, que não tem atalho. O trabalho que gera riqueza, que gera emprego e que dá sentido à vida.

Julio Ribeiro é um sinal na estrada (e no céu) mostrando que o caminho do Brasil é o trabalho.

Nizan Guanaes

Publicitário baiano, é dono do maior grupo publicitário do país, o ABC. Escreve às terças-feiras,a cada duas semanas.

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